domingo, 15 de novembro de 2015

Redamar.


Não era mais como ouvir uma música para lembrar de você, com música ou sem música, você era constante, infelizmente, distante.
Eu fecho os olhos e sinto o frio de por os pés e o coração no oceano que eu reguei, sem perceber que esse mesmo oceano ia ser ao mesmo tempo o que nos separa e que faz corrente o que ainda sobrou do que aconteceu pela metade.
Eu sinto o cheiro da grama molhada que eu não pisei com você assim como o calafrio do fim de chuva que só foi viva nos meus olhos, e quanto mais eu franzia os olhos tentando te ver, mais água caia, não como tempestade, mas como chuva fina, de fim de dia que deixa a cena mais triste.
Sinto fome até hoje, do jantar que não fui quando você fez pra mim, o que não fez por ninguém, pelo menos até alí. O vinho eu também não bebí e a minha boca seca até hoje e só não seca mais pois toda vez que eu soluço do meu choro quase infantil, daquele que treme as costas, eu acabo engolindo água do oceano que eu reguei, lágrima por lágrima, e não foram minhas. Eu só não digo das minhas experiências no vazio, porque tive a companhia das lembranças dos dias que te encontrei, mesmo sem ter você, do almoço que você me convidou e eu não fui, das revistas que você me deu com um cartão onde eu gostei mais do cartão do que do conteúdo das revistas... cada vez que eu folheio aquelas revistas eu ouço você dizendo que não sabia qual eu queria então havia trazido as duas, superestimando que eu soubesse ler em inglês e até hoje não consigo lê-la inteira, mas o cartão, o cartão que eu não tenho mais, cada vez que eu leio em memória me diz algo diferente... De tudo que eu sinto hoje o que mais dói é não poder ouvir o mascar do seu chiclete e seu sorriso franzindo o nariz, me olhando com receio como se eu fosse sumir no dia seguinte...
Teadorar tem sido meu bom hábito nas últimas semanas, quando você me disse que mesmo longe eu posso tentar ver como as coisas se encaixam, no seu coração maduro de menina, sem que eu seja um quebra-cabeça, mas sendo o que você já sabe que eu sou e tendo o que você ainda não teve mesmo me dando o que não merecia.
Pra você, eu guardei o melhor de mim, mesmo que num oceano, regado por mim sem saber nadar, vou á braços largos, com a cinese que você me causa, como diz um poema* irlandês:

"Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade."

Pra você, eu não deixo saudade, mas a palavra de um homem que em outras línguas diz, que uma chance a mais é uma saudade a menos.

*Poema Irlandês Com o Tempo a Sabedoria, de William Butler Yeats.
Créditos da imagem á facebook.com/superpolicar

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